Duas pessoas aparecem inesperadamente em uma sala.
Não chegam pela porta.
Não telefonam antes.
Não apresentam credenciais.
Segundo o relato de Gary Renard em O Desaparecimento do Universo, elas simplesmente estavam ali quando ele abriu os olhos depois de uma meditação.
Um homem e uma mulher sentados em seu sofá.
Mais tarde, eles seriam conhecidos pelos leitores como Arten e Pursah.
Mas quem são eles?
A resposta mais simples seria dizer que, dentro da narrativa de Gary Renard, Arten e Pursah são apresentados como mestres ascensionados que aparecem para ensinar a Gary uma interpretação metafísica de Um Curso em Milagres.
Entretanto, essa definição ainda diz muito pouco.
Porque, à medida que avançamos pelo livro, percebemos que Arten e Pursah cumprem uma função muito maior.
Eles não estão ali apenas para contar a Gary de onde vieram.
Estão ali para questionar praticamente tudo aquilo que ele acredita saber sobre a realidade.
O PRIMEIRO ENCONTRO
A cena acontece durante a semana do Natal de 1992.
Gary relata que estava sozinho em sua casa, em uma região rural do Maine. Sua esposa, Karen, havia saído para trabalhar e ele estava meditando na sala.
Quando terminou a meditação e abriu os olhos, viu um homem e uma mulher sentados no sofá.
A descrição é interessante justamente porque não corresponde ao estereótipo de uma aparição espiritual.
Gary afirma que eles pareciam ter aproximadamente trinta anos.
Pareciam saudáveis.
Vestiam roupas contemporâneas.
Não possuíam asas.
Não estavam cercados por uma aura espetacular.
Não irradiavam algum efeito visual sobrenatural.
Segundo ele, poderiam estar sentados em um restaurante e provavelmente ninguém lhes daria atenção especial.
A única diferença era extraordinária: Gary não sabia como eles tinham chegado até ali.
Ele os descreve como aparentemente sólidos e, ao mesmo tempo, profundamente pacíficos.
A mulher falou primeiro.
Ela era Pursah.
O homem era Arten.
E assim começou uma sequência de encontros que, segundo Gary, se estenderia por vários anos.
ELES DIZEM NÃO SER ANJOS
Em determinado momento, Gary faz exatamente a pergunta que qualquer leitor provavelmente faria: “O que vocês são?”
A resposta apresentada no livro é específica.
Arten afirma que eles seriam mestres ascensionados, e não anjos.
Dentro da cosmologia apresentada por eles, a diferença estaria no fato de que anjos não teriam passado pela experiência de nascer em corpos, enquanto Arten e Pursah afirmam ter vivido muitas experiências corporais.
Eles dizem ter concluído esse processo e não precisar mais nascer.
Também explicam que as aparências utilizadas diante de Gary representariam suas últimas identidades terrenas.
É fundamental mantermos a mesma distinção que estabelecemos desde o início desta série: essas são afirmações feitas dentro da narrativa de Gary Renard.
Não estamos tratando a existência objetiva de mestres ascensionados ou a identidade espiritual de Arten e Pursah como fatos históricos comprovados.
Estamos estudando o que o livro afirma e, principalmente, a função dessas figuras dentro de seus ensinamentos.
PURSAH E TOMÉ
Uma das revelações mais surpreendentes da obra acontece quando os visitantes começam a falar sobre supostas encarnações anteriores.
Gary afirma, na nota introdutória do livro, que Arten e Pursah acabaram identificando uma de suas vidas anteriores como São Tadeu e São Tomé, respectivamente.
Isso produz uma inversão curiosa.
Pursah aparece diante de Gary como mulher. Mas afirma ter sido homem em outras experiências de vida.
O próprio diálogo aborda a possibilidade, dentro da cosmologia do livro, de uma consciência experimentar vidas masculinas e femininas.
Na narrativa, a identidade associada a Tomé se torna especialmente importante porque o livro também discute o Evangelho de Tomé.
Mas novamente precisamos separar duas coisas: uma é aquilo que a pesquisa histórica pode estabelecer sobre os textos antigos. Outra são as afirmações espirituais apresentadas pelos personagens do livro.
Não são necessariamente a mesma coisa.
ARTEN E TADEU
Arten, por sua vez, afirma ter sido Tadeu.
No diálogo, ele diz ter recebido originalmente o nome Labeu e posteriormente ter sido chamado de Tadeu. Também se descreve como alguém humilde, quieto e dedicado ao aprendizado.
Essas revelações permitem que Gary faça aquilo que desejara anteriormente em suas orações: aproximar-se, ainda que dentro da estrutura narrativa do livro, de pessoas que afirmam ter conhecido Jesus.
Mas aqui surge algo interessante.
Se o objetivo fosse simplesmente revelar vidas passadas extraordinárias, o livro poderia ter seguido por esse caminho.
Não segue.
O centro das conversas rapidamente volta para: mente de Gary.
E isso nos ajuda a compreender a verdadeira função de Arten e Pursah.
ELES NÃO APARECEM PARA IMPRESSIONAR GARY
Arten e Pursah não passam o livro tentando provar que são seres especiais.
Na verdade, frequentemente fazem exatamente o contrário.
Usam humor.
Provocam Gary.
Questionam suas certezas.
Corrigem sua compreensão.
E, às vezes, dizem coisas que ele claramente não gostaria de ouvir.
Gary observa na introdução que algumas falas dos dois podem parecer duras quando colocadas no papel, mas afirma que percebia neles gentileza, humor, humildade e amor. Segundo ele, o estilo direto teria sido utilizado deliberadamente para fazê-lo prestar atenção.
Isso define muito bem a dinâmica dos três.
Gary é o aluno que pergunta.
Arten e Pursah são os professores que frequentemente respondem: “Você ainda está olhando para isso da maneira antiga.”
DOIS PROFESSORES, UMA FUNÇÃO
Apesar de possuírem personalidades diferentes, Arten e Pursah trabalham em direção ao mesmo objetivo.
Eles querem ensinar Gary a distinguir aquilo que o livro apresenta como dois sistemas de pensamento.
De um lado: o ego.
Do outro: o Espírito Santo.
Arten explica que esse contraste é necessário porque, segundo a interpretação apresentada no livro, esses dois sistemas conduzem a experiências completamente diferentes.
O ego interpreta através da separação.
O Espírito Santo reinterpretaria aquilo que vemos a partir de outra perspectiva.
O ego procura culpa.
O Espírito Santo oferece correção.
O ego quer provar que existe um inimigo.
O Espírito Santo transforma o relacionamento em oportunidade de perdão.
Assim, Arten e Pursah funcionam quase como professores que repetidamente perguntam: “Qual professor você está escolhendo agora?”
ELES NÃO QUEREM QUE GARY DEPENDA DELES
Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes.
Se Arten e Pursah quisessem criar dependência espiritual, seria natural dizer: “Você precisa de nós para continuar.” Mas não é essa a orientação apresentada.
Em determinado diálogo, Pursah diz que eles não fariam visitas regulares para sempre e que Gary deveria continuar aprendendo mesmo quando não parecessem estar presentes.
Mais tarde, a orientação se torna ainda mais clara.
Gary deveria aprender a trabalhar com o Espírito Santo e pedir orientação diretamente quando precisasse tomar decisões relacionadas à sua missão.
Essa mudança é fundamental.
O professor externo aponta para o Professor interior.
A presença extraordinária deixa de ser o centro.
A prática passa a ser o centro.
POR QUE ELES APARECEM COMO HOMEM E MULHER?
Essa pergunta toca diretamente a metafísica do livro.
Arten e Pursah aparecem em corpos diferentes. Mas os próprios ensinamentos que apresentam dizem que nossa identidade verdadeira não seria corporal.
Dentro da perspectiva ensinada no livro, masculino e feminino pertencem ao domínio da forma.
A realidade espiritual última não estaria dividida nessas categorias.
Em outro diálogo, Pursah afirma que no Céu não existiriam diferenças e que a realidade divina seria caracterizada pela unidade.
Isso cria uma espécie de paradoxo pedagógico.
Eles utilizam formas para ensinar que não somos a forma.
Utilizam corpos para ensinar que não somos corpos.
Utilizam palavras para apontar para algo que, segundo sua metafísica, estaria além das palavras.
Utilizam duas pessoas aparentemente separadas para ensinar sobre uma realidade na qual a separação não existe.
Nesse sentido, até suas aparências funcionam como símbolos.
O QUE ARTEN E PURSAH QUEREM ENSINAR?
Quando retiramos todas as histórias extraordinárias, resta um núcleo surpreendentemente prático.
Eles querem ensinar Gary a mudar a mente.
Não apenas acumular conhecimentos metafísicos.
Não apenas acreditar em reencarnação.
Não apenas descobrir quem teria sido quem em outra vida.
Não apenas compreender intelectualmente a natureza do universo.
O objetivo é transformar a maneira como Gary reage às situações.
O livro afirma repetidamente que os acontecimentos aparentemente externos ativam julgamentos, medo, culpa, raiva, superioridade, inferioridade e outras respostas que reforçam a experiência de separação.
É aí que entra o treinamento.
Quando alguma coisa acontece, Gary pode reagir automaticamente.
Ou pode observar sua mente.
Pode condenar.
Ou pode aprender a perdoar.
Pode transformar alguém em inimigo.
Ou pode utilizar aquela mesma pessoa como oportunidade para reconhecer algo que ainda precisa ser curado em sua própria percepção.
ARTEN E PURSAH COMO ESPELHOS
Podemos aprofundar ainda mais essa leitura.
Independentemente de como cada leitor interprete a origem das experiências narradas por Gary, Arten e Pursah podem ser compreendidos, dentro da arquitetura do livro, como espelhos pedagógicos.
Eles continuamente devolvem Gary para si mesmo.
Gary pergunta sobre o universo.
Eles voltam para a mente.
Gary pergunta sobre outra pessoa.
Eles voltam para a mente.
Gary pergunta sobre acontecimentos externos.
Eles voltam para a mente.
Gary quer entender o comportamento do mundo.
Eles voltam para a mente.
Porque o eixo do ensinamento é: a causa que precisa ser trabalhada está na mente.
Isso não significa que acontecimentos externos não devam ser enfrentados.
Não significa abandonar o bom senso.
O próprio diálogo distingue condenação de decisões práticas necessárias à vida cotidiana.
O que muda é o lugar onde buscamos a cura fundamental.
PRECISAMOS ACREDITAR QUE ARTEN E PURSAH EXISTEM?
Não.
Pelo menos não para estudar o livro.
E isso não é uma conclusão que precisamos impor à obra.
O próprio Gary diz isso.
Ele afirma que não considera essencial que o leitor acredite que as aparições tenham acontecido para se beneficiar das informações apresentadas.
Isso nos permite estabelecer uma postura extremamente fértil.
Não precisamos escolher imediatamente entre:
“Acredito em tudo.”
ou
“Rejeito tudo.”
Existe uma terceira possibilidade: investigar.
Podemos perguntar:
Essa ideia faz sentido dentro do sistema apresentado?
O que ela revela sobre minha maneira de pensar?
Ela me torna mais consciente dos meus julgamentos?
Ajuda-me a reconhecer minhas projeções?
Produz mais responsabilidade pela minha própria mente?
Ajuda-me a compreender o perdão?
Essa postura preserva simultaneamente abertura e discernimento.
O VERDADEIRO TESTE NÃO É A APARIÇÃO
Imagine que amanhã Arten e Pursah aparecessem diante de você.
Seria extraordinário.
Mas depois?
Você ainda teria relacionamentos.
Ainda encontraria pessoas difíceis.
Ainda teria dias em que seus planos não funcionariam.
Ainda seria contrariado.
Ainda teria oportunidades de julgar.
Ainda teria medo.
Ainda precisaria decidir qual interpretação dar às experiências.
É por isso que, paradoxalmente, a parte mais extraordinária de O Desaparecimento do Universo talvez não sejam as aparições.
É aquilo que acontece depois delas.
Gary precisa praticar.
Precisa observar.
Precisa errar.
Precisa tentar novamente.
Precisa descobrir que conhecer a teoria do perdão não significa ter perdoado.
E Arten e Pursah continuam trazendo-o de volta para essa prática.
UMA EXPERIÊNCIA PARA HOJE
Podemos transformar o ensinamento central deste post em uma pequena prática.
Pense em uma pessoa que desperta alguma reação em você.
Não escolha necessariamente o maior conflito da sua vida.
Comece com algo pequeno.
Alguém que irrita você.
Alguém que você considera difícil.
Alguém cujo comportamento você gostaria de mudar.
Observe o que acontece em sua mente quando pensa nessa pessoa.
Agora pergunte: “Qual interpretação estou escolhendo?”
Depois: “Existe outra maneira de olhar para isso?”
Você não precisa fabricar uma resposta espiritual.
Não precisa fingir amor.
Não precisa negar aquilo que sente.
Apenas crie um espaço entre o acontecimento e a interpretação.
É nesse espaço que a possibilidade de escolha começa a aparecer.
E é justamente para esse espaço que Arten e Pursah continuamente tentam conduzir Gary.
TALVEZ A PERGUNTA MAIS IMPORTANTE SEJA OUTRA
Quando conhecemos Arten e Pursah, a primeira pergunta naturalmente é: “Quem são eles?”
Mas, depois de compreender a função que desempenham no livro, talvez surja uma pergunta mais profunda:
“Quem estou escolhendo como professor da minha mente?”
O medo?
A culpa?
O passado?
O julgamento?
O ego?
Ou uma maneira diferente de perceber?
Talvez seja essa a verdadeira razão pela qual Arten e Pursah importam tanto na narrativa.
Não porque desejem ocupar o centro da história. Mas porque apontam continuamente para aquilo que, segundo o ensinamento apresentado no livro, precisa ocupar esse centro: a transformação da mente através do perdão.
No próximo post
Por que O Desaparecimento do Universo está ligado a Um Curso em Milagres?
Vamos compreender por que UCEM ocupa uma posição tão central nas conversas de Arten e Pursah, o que Gary encontrou no Curso, por que O Desaparecimento do Universo não deve ser confundido com o próprio UCEM e como os dois livros podem ser estudados lado a lado sem misturar suas diferentes autorias e interpretações.
