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  • O que é O Desaparecimento do Universo?

    O que é O Desaparecimento do Universo?

    Há livros que procuram responder às grandes perguntas da existência.

    E há livros que começam questionando se aquilo que chamamos de existência é realmente o que pensamos que seja.

    O Desaparecimento do Universo, de Gary R. Renard, pertence a essa segunda categoria.

    Desde as primeiras páginas, a obra conduz o leitor para uma investigação radical sobre Deus, o mundo, a consciência, o ego, o corpo, a culpa, o perdão e aquilo que entendemos como realidade.

    Não é um livro convencional de espiritualidade.

    Também não é simplesmente um comentário sobre Um Curso em Milagres.

    É apresentado como uma longa sequência de conversas entre Gary Renard e dois personagens espirituais chamados Arten e Pursah, que, segundo o relato do autor, apareceram fisicamente diante dele ao longo de vários anos. Gary situa esses encontros entre dezembro de 1992 e dezembro de 2001.

    A partir desses diálogos, o livro apresenta uma interpretação profunda e muitas vezes provocadora dos princípios metafísicos de Um Curso em Milagres.

    Mas existe um ponto essencial antes de prosseguirmos: o próprio Gary Renard afirma que não é necessário acreditar nas aparições de Arten e Pursah para aproveitar os ensinamentos apresentados no livro. Ele deixa ao leitor a liberdade de formar sua própria opinião sobre a origem dessas experiências.

    Esse é um excelente ponto de partida para nossa leitura.

    Podemos nos aproximar da obra não perguntando inicialmente: “Isso aconteceu exatamente assim?”

    Mas perguntando: “O que essas ideias estão tentando nos ensinar?”

    UM LIVRO SOBRE UMA MUDANÇA RADICAL DE PERCEPÇÃO

    O subtítulo já oferece uma pista sobre a amplitude da proposta.

    O livro anuncia uma conversa sobre ilusões, vidas passadas, religião, sexo, política e os milagres do perdão.

    Porém, apesar da variedade de assuntos, existe uma questão central atravessando toda a obra: O que aconteceria se estivéssemos profundamente enganados sobre a natureza da realidade?

    A partir daí, praticamente tudo é colocado sob investigação.

    Quem somos?

    Somos realmente nossos corpos?

    Deus criou este mundo?

    Por que existe sofrimento?

    Qual é a origem do medo?

    Por que repetimos conflitos?

    O que é o ego?

    Por que julgamos?

    O que acontece quando morremos?

    O tempo é real?

    O que significa despertar?

    E, principalmente: o que é o verdadeiro perdão?

    Essas perguntas não aparecem isoladamente.

    Elas fazem parte de uma estrutura metafísica que vai sendo construída aos poucos durante as conversas.

    A PRIMEIRA GRANDE VIRADA

    Em grande parte das tradições religiosas, existe uma distinção relativamente clara: Deus criou o universo.

    Nós vivemos dentro desse universo.

    E nossa tarefa espiritual consiste em aprender a viver nele de maneira mais próxima de Deus.

    O Desaparecimento do Universo apresenta uma perspectiva completamente diferente.

    Dentro da interpretação ensinada por Arten e Pursah, existe uma distinção radical entre realidade e percepção.

    O mundo que percebemos pertenceria ao domínio da experiência da separação.

    Deus, por outro lado, pertenceria à realidade absoluta.

    Essa perspectiva se aproxima daquilo que o livro chama de puro não-dualismo.

    Nesse sistema de pensamento, realidade e ilusão não formam dois poderes opostos igualmente verdadeiros.

    Somente a realidade é real.

    A ilusão pode ser experimentada, mas não adquire realidade absoluta apenas porque parece convincente.

    É justamente essa diferenciação que sustenta grande parte da metafísica desenvolvida ao longo do livro.

    MAS ENTÃO O MUNDO NÃO EXISTE?

    Essa provavelmente é uma das primeiras resistências de qualquer leitor.

    Se estou vendo uma árvore, tocando uma mesa, conversando com pessoas e experimentando acontecimentos concretos, como alguém pode dizer que isso pertence ao campo da ilusão?

    O livro não pede inicialmente que o leitor negue sua experiência cotidiana.

    Ele procura alterar a interpretação que fazemos dela.

    Dentro da lógica apresentada pela obra, dizer que algo pertence ao domínio da ilusão não significa simplesmente dizer: “Estou imaginando tudo.”

    A questão é muito mais profunda.

    Trata-se de perguntar se aquilo que percebemos representa a realidade última ou apenas uma experiência produzida dentro de determinado estado da mente.

    A metáfora do sonho aparece repetidamente porque ajuda a compreender essa ideia.

    Enquanto estamos sonhando, aquilo que acontece no sonho parece real.

    Sentimos medo.

    Alegria.

    Desejo.

    Perda.

    Perigo.

    Podemos correr, amar, sofrer ou lutar.

    Somente depois de despertar percebemos que todo aquele universo pertencia a outro estado de consciência.

    A grande provocação de O Desaparecimento do Universo é perguntar: e se algo semelhante estiver acontecendo agora?

    O PROBLEMA NÃO ESTARIA NO MUNDO, MAS NA MENTE

    Essa é uma das mudanças mais importantes propostas pelo livro.

    Normalmente tentamos resolver nossos problemas alterando circunstâncias externas.

    Mudamos pessoas.

    Relacionamentos.

    Empregos.

    Cidades.

    Projetos.

    Estratégias.

    Tentamos reorganizar o mundo para finalmente encontrar paz.

    O ensinamento apresentado no livro desloca o foco.

    Ele afirma que a raiz do problema deve ser procurada na mente, e não simplesmente nos acontecimentos externos.

    Em um trecho posterior, a orientação é expressa diretamente: voltar à fonte do problema — a mente — e mudar a mente através do perdão.

    Isso não significa abandonar responsabilidades práticas.

    Significa perceber que podemos modificar circunstâncias indefinidamente e ainda carregar conosco o mesmo sistema de pensamento.

    Se a causa permanece, novos cenários podem simplesmente reproduzir os mesmos conflitos.

    ONDE ENTRA O EGO?

    Aqui chegamos a outro conceito fundamental.

    O ego, dentro dessa perspectiva, não é apenas arrogância ou excesso de autoestima.

    É um sistema de pensamento.

    Ele está relacionado à crença na separação.

    Separação entre nós e Deus.

    Separação entre nós e os outros.

    Separação entre sujeito e objeto.

    Separação entre quem ama e quem é amado.

    Quando essa separação é considerada verdadeira, surgem consequências psicológicas.

    Medo.

    Culpa.

    Defesa.

    Comparação.

    Julgamento.

    Ataque.

    Projeção.

    O livro dedica boa parte de sua estrutura a revelar como esse sistema funciona e como pode permanecer inconsciente enquanto dirige a experiência humana.

    É justamente por isso que apenas tentar “pensar positivo” não resolveria, dentro dessa abordagem, a raiz do problema.

    É preciso olhar para o sistema de pensamento que está por trás da percepção.

    E QUAL SERIA A ALTERNATIVA?

    O livro apresenta dois sistemas de pensamento.

    Um é associado ao ego.

    O outro, ao Espírito Santo.

    Esses termos precisam ser compreendidos dentro da linguagem específica de Um Curso em Milagres.

    O Espírito Santo aparece como uma espécie de princípio de correção dentro da mente: uma maneira diferente de interpretar aquilo que vemos.

    O acontecimento externo pode continuar sendo o mesmo. Mas sua interpretação pode mudar. É nesse ponto que surge o significado de milagre.

    O MILAGRE NÃO É NECESSARIAMENTE ALGO SOBRENATURAL

    Uma das ideias que mais surpreende leitores iniciantes é a definição de milagre utilizada nessa tradição.

    Milagre não significa necessariamente fazer aparecer algo fisicamente extraordinário.

    Seu sentido principal está relacionado a uma mudança de percepção.

    Você vê uma situação através do medo.

    Depois passa a enxergá-la através de outra perspectiva.

    Você vê alguém exclusivamente como inimigo.

    Depois começa a perceber aquilo que seu próprio julgamento está revelando sobre sua mente.

    Você pensa que a paz depende do comportamento de outra pessoa.

    Depois reconhece que existe um trabalho interior que não pode ser delegado.

    Essa mudança é o início do milagre.

    E ela nos conduz ao coração de todo o livro:

    O PERDÃO

    Talvez nenhuma palavra seja tão importante em O Desaparecimento do Universo quanto perdão.

    Mas o perdão apresentado ali não é exatamente o perdão convencional.

    Normalmente dizemos: “Você realmente fez algo terrível contra mim, mas eu sou suficientemente bom para perdoá-lo.”

    Nesse modelo, a culpa do outro continua sendo considerada absolutamente real.

    A condenação apenas recebe uma camada de benevolência.

    O perdão discutido no livro procura chegar mais fundo. Ele trabalha com nossa percepção, nossas projeções e a culpa inconsciente.

    O objetivo não é simplesmente modificar nosso comportamento exterior. É utilizar aquilo que acontece nos relacionamentos como oportunidade de cura da mente.

    Esse tema cresce tanto ao longo da obra que o próprio Gary reconhece, olhando retrospectivamente, que só nos capítulos finais percebeu estar realmente praticando o perdão.

    Isso nos revela algo importante: compreender intelectualmente não é o mesmo que praticar.

    O LIVRO NÃO SUBSTITUI UM CURSO EM MILAGRES

    Esse ponto merece atenção.

    O Desaparecimento do Universo utiliza extensivamente ideias e referências de Um Curso em Milagres.

    Entretanto, o prefácio esclarece que a obra não pretende substituir o Curso. Ela pode funcionar como uma introdução provocadora ou como uma revisão de seus princípios fundamentais.

    Além disso, o próprio Gary registra que as ideias apresentadas representam sua interpretação e compreensão pessoal, não necessariamente a posição dos detentores dos direitos de Um Curso em Milagres.

    Essa distinção será muito importante ao longo desta série.

    Estudaremos aquilo que Gary, Arten e Pursah apresentam no livro e, quando necessário, distinguiremos isso do texto original de UCEM.

    UMA VIAGEM EM DUAS PARTES

    A estrutura do livro também revela sua intenção.

    A primeira parte recebe o nome: Um Sussurro em Seu Sonho.

    Nela estão os capítulos sobre Arten e Pursah, o “J Oculto”, o milagre, os segredos da existência e o plano do ego.

    Depois começa a segunda parte: Despertar.

    Ali entram a alternativa do Espírito Santo, a lei do perdão, iluminação, experiências de quase-morte, cura, tempo, notícias, oração, abundância, futuro e, finalmente, O Desaparecimento do Universo.

    A própria organização sugere um movimento: primeiro compreender o sonho.

    Depois: aprender a despertar dele.

    ENTÃO O QUE SIGNIFICA “O DESAPARECIMENTO DO UNIVERSO”?

    Não significa simplesmente imaginar que planetas, estrelas e objetos vão desaparecer diante dos nossos olhos.

    O significado é principalmente metafísico.

    Se o universo da separação depende de uma determinada maneira de perceber, quando essa percepção é completamente corrigida, aquilo que sustentava o sonho deixa de ter função.

    O desaparecimento começa, portanto, na mente.

    Desaparece uma condenação.

    Desaparece uma culpa.

    Desaparece uma necessidade de atacar.

    Desaparece a necessidade de transformar alguém em inimigo.

    Desaparece uma projeção.

    Desaparece outra.

    E, progressivamente, aquilo que parecia provar nossa separação começa a ser utilizado para desfazê-la.

    No final da obra, Gary relaciona explicitamente o perdão à paz de Deus, ao retorno ao Céu e ao próprio desaparecimento do universo dentro dessa estrutura metafísica.

    A PERGUNTA QUE O LIVRO DEIXA PARA NÓS

    Talvez não seja necessário começar perguntando se concordamos com tudo.

    Há outra pergunta muito mais fértil:

    E se parte do sofrimento que atribuímos ao mundo estiver sendo produzida pela maneira como nossa mente interpreta o mundo?

    Observe essa pergunta durante o dia.

    Quando alguém contrariar você, perceba.

    Quando surgir irritação, perceba.

    Quando desejar culpar alguém, perceba.

    Quando sentir necessidade de provar que está certo, perceba.

    Não precisa mudar imediatamente.

    Primeiro observe.

    Porque uma das portas para o verdadeiro perdão é justamente começar a reconhecer o sistema de pensamento que antes funcionava sem ser percebido.

    Talvez seja aí que o “desaparecimento” realmente comece.

    Não com o desaparecimento das estrelas.

    Não com o desaparecimento das pessoas.

    Mas com o desaparecimento gradual daquilo que nos fazia acreditar que estávamos irremediavelmente separados uns dos outros e de Deus.

    No próximo post da série:

    Quem é Gary Renard e como surgiu O Desaparecimento do Universo?

    Vamos conhecer a história que o autor conta sobre sua busca espiritual, as primeiras aparições de Arten e Pursah, o período de nove anos de elaboração do livro e como essa experiência acabou conduzindo-o aos ensinamentos de Um Curso em Milagres.