Alguns livros começam com uma pesquisa.
Outros começam com uma pergunta.
O Desaparecimento do Universo começa, segundo o relato de seu autor, com uma experiência que transformaria completamente a direção de sua vida.
Antes de se tornar conhecido internacionalmente por seus livros ligados aos ensinamentos de Um Curso em Milagres, Gary R. Renard era músico profissional. Nascido no litoral norte de Massachusetts, nos Estados Unidos, trabalhou como guitarrista e cantor. Segundo sua biografia, em 1987 começou a direcionar sua vida mais intensamente para a espiritualidade e, no início da década de 1990, mudou-se para o estado do Maine. A biografia oficial atual de Gary confirma essa trajetória e informa que a elaboração de O Desaparecimento do Universo levou cerca de nove anos. (garyrenard.com)
Mas para compreender como o livro nasceu, precisamos voltar a 1992.
UMA VIDA QUE COMEÇAVA A MUDAR
Na semana do Natal daquele ano, Gary conta que estava atravessando um processo de transformação interior.
Não era, inicialmente, a história de alguém vivendo em permanente êxtase espiritual.
Havia questões financeiras.
Incertezas profissionais.
Conflitos.
Uma disputa judicial com um antigo amigo.
E, sobretudo, uma crescente percepção de que a maneira como vinha conduzindo sua vida talvez não pudesse oferecer a paz que procurava.
Foi então que tomou uma decisão aparentemente simples, mas que se tornaria muito significativa diante dos ensinamentos que receberia posteriormente.
Gary desistiu da ação judicial contra aquele antigo amigo.
Começou a experimentar o perdão.
Ainda não compreendia plenamente o significado que essa palavra adquiriria posteriormente.
Mas algo já estava mudando.
“PRECISA EXISTIR UMA MANEIRA MELHOR”
Essa é uma chave importante para compreender a trajetória de Gary.
Antes das grandes explicações metafísicas, existe uma insatisfação.
A percepção de que conflito após conflito não poderia constituir a resposta definitiva para a vida.
Durante aproximadamente três décadas, Gary já havia buscado respostas espirituais.
Entretanto, segundo sua própria narrativa, acumular conhecimento não significava necessariamente viver aquilo que havia aprendido.
Esse é um ponto extremamente atual.
Podemos ler dezenas de livros.
Assistir a centenas de palestras.
Conhecer conceitos sobre consciência, espiritualidade, ego, meditação e perdão.
E continuar reagindo exatamente da mesma maneira quando alguém nos contraria.
A transformação começa quando o ensinamento deixa de ser apenas informação.
E passa a atingir nossas escolhas.
O PEDIDO A JESUS
Durante aquele período, Gary também relata que rezava frequentemente para Jesus.
Havia uma pergunta particular em sua mente.
Ele imaginava como teria sido viver dois mil anos atrás e aprender diretamente com Jesus.
Como seria estar diante dele?
O que ele realmente teria ensinado?
O que seus discípulos teriam compreendido?
E o que poderia ter sido modificado posteriormente pelas interpretações religiosas?
Dentro da narrativa de O Desaparecimento do Universo, essa pergunta prepara o terreno para aquilo que Gary afirma ter acontecido pouco depois.
O NATAL DE 1992
Gary estava em sua casa, em uma região rural do Maine.
Sua esposa havia saído para trabalhar.
Ele estava sozinho e meditava na sala.
Quando terminou a meditação e abriu os olhos, afirma ter encontrado duas pessoas sentadas em seu sofá.
Um homem.
Uma mulher.
Eles se apresentariam como: Arten e Pursah.
Esse episódio constitui o ponto de partida da narrativa central do livro. O próprio Gary declara que, enquanto vivia no Maine, testemunhou uma série de aparições que interpretou como manifestações físicas de dois “mestres ascensionados”.
É importante fazer uma distinção: essa é a experiência conforme relatada por Gary Renard.
Não precisamos transformar a alegação em fato histórico verificável para estudar o conteúdo da obra.
Aliás, o próprio autor oferece ao leitor essa liberdade.
Ele afirma explicitamente que não é necessário acreditar que as aparições realmente tenham acontecido para obter benefícios das informações apresentadas no livro.
Essa talvez seja a melhor postura para nossa série: não precisamos começar pela crença.
Podemos começar pela investigação.
QUEM SÃO ARTEN E PURSAH?
Dentro do relato de Gary, Arten e Pursah se apresentam como professores espirituais.
Mais tarde, eles afirmam ter vivido, entre outras encarnações, como discípulos de Jesus.
Mas sua função mais importante dentro da estrutura do livro não é simplesmente contar histórias sobre vidas passadas.
Eles funcionam como professores de um sistema de pensamento.
Ao longo das conversas, questionam Gary constantemente.
Questionam suas crenças.
Suas interpretações sobre Deus.
Sua compreensão sobre Jesus.
Sua visão sobre o universo.
Sua relação com o corpo.
Sua maneira de entender o perdão.
E principalmente: sua convicção de que aquilo que percebe é necessariamente a realidade.
É por isso que o livro pode ser desconfortável.
Arten e Pursah não aparecem apenas para oferecer mensagens tranquilizadoras.
Eles aparecem, dentro da narrativa, para desmontar progressivamente uma visão de mundo.
UMA CONVERSA QUE DUROU QUASE UMA DÉCADA
O livro não apresenta apenas aquele primeiro encontro.
Gary situa os acontecimentos narrados entre dezembro de 1992 e dezembro de 2001.
As conversas são apresentadas predominantemente na forma de diálogo entre três participantes: Gary, Arten e Pursah.
A descrição editorial da obra fala em 17 conversas realizadas ao longo de quase uma década. (PenguinRandomhouse.com)
Isso explica uma característica interessante do livro: não estamos acompanhando apenas uma exposição teórica. Estamos acompanhando Gary tentando compreender os ensinamentos.
Perguntando.
Discordando.
Fazendo piadas.
Resistindo.
Tentando novamente.
E, principalmente, tentando aplicar aquilo que aprende.
NOVE ANOS PARA ESCREVER UM LIVRO
Gary afirma ter escrito O Desaparecimento do Universo lentamente e com cuidado durante aproximadamente nove anos.
Isso também corresponde à cronologia dos encontros narrados.
Mas há outro detalhe importante.
Gary explica que o livro não deve ser entendido como uma transcrição absolutamente literal de cada palavra pronunciada durante os encontros.
Ele afirma ter ampliado algumas conversas posteriormente a partir do que recordava e descreve a obra como um projeto pessoal. Também assume responsabilidade por eventuais erros factuais e registra expressamente que as ideias apresentadas constituem sua interpretação e compreensão pessoal.
Essa informação é fundamental para uma leitura cuidadosa.
Temos, portanto, pelo menos três níveis diferentes:
- a experiência que Gary afirma ter vivido;
- a maneira como ele posteriormente registrou essa experiência;
- e os ensinamentos metafísicos apresentados através dela.
Separar esses níveis permite estudar o livro sem perder discernimento.
E ONDE ENTRA UM CURSO EM MILAGRES?
Aqui está uma das peças centrais da história.
O Desaparecimento do Universo está profundamente relacionado a Um Curso em Milagres.
As conversas apresentam uma interpretação de conceitos como:
• ego;
• separação;
• culpa inconsciente;
• projeção;
• percepção;
• Espírito Santo;
• milagre;
• perdão;
• não-dualismo;
• despertar.
O livro contém numerosas referências ao Curso e utiliza seus ensinamentos como eixo para desenvolver a visão metafísica apresentada por Arten e Pursah.
Entretanto, existe uma distinção essencial: O Desaparecimento do Universo não é Um Curso em Milagres.
Nem pretende substituí-lo.
O prefácio da obra descreve o livro como uma possível introdução ou revisão radical dos princípios fundamentais do Curso.
Essa diferença será preservada ao longo de toda a nossa série.
Quando uma ideia pertencer especificamente à interpretação de Gary, Arten e Pursah, trataremos como tal.
Quando estivermos examinando diretamente UCEM, faremos essa distinção.
O VERDADEIRO PERSONAGEM DA HISTÓRIA
À primeira vista, podemos pensar que os protagonistas são Arten e Pursah. Mas existe outra maneira de enxergar a obra.
O verdadeiro personagem em transformação é a mente de Gary.
No começo, ele ouve conceitos.
Depois tenta entendê-los.
Mais tarde começa a perceber seus próprios julgamentos.
E finalmente precisa levar o ensinamento para situações concretas.
Isso se torna particularmente evidente quando Gary olha retrospectivamente para sua experiência e admite que somente nos capítulos finais sentiu que estava realmente praticando o perdão.
Essa frase revela muito sobre a proposta do livro.
Porque existe uma enorme distância entre:
saber explicar o perdão
e
perdoar quando alguém nos fere.
Existe uma enorme distância entre:
falar sobre o ego
e
perceber o ego funcionando em nós.
Existe uma enorme distância entre:
estudar paz
e
escolher paz quando temos a oportunidade de atacar.
É justamente essa passagem da teoria para a prática que acompanhará toda a trajetória.
POR QUE O LIVRO SE TORNOU TÃO LIGADO A UCEM?
Porque Gary apresenta conceitos metafísicos complexos através de conversas informais.
Ele pergunta aquilo que muitos leitores provavelmente perguntariam.
“Como isso pode ser verdade?”
“E o corpo?”
“E Deus?”
“E a morte?”
“E o sofrimento?”
“E as pessoas que realmente fazem coisas terríveis?”
“Como posso perdoar isso?”
A linguagem dialogada torna acessíveis conceitos que, em Um Curso em Milagres, podem parecer bastante densos em uma primeira leitura.
Mas existe também um risco.
O leitor pode começar a considerar automaticamente tudo aquilo que Arten e Pursah dizem como se fosse uma afirmação direta de UCEM.
Por isso nossa série fará continuamente uma distinção entre o texto de Gary Renard e o texto do Curso.
O LIVRO COMEÇA COM UMA APARIÇÃO, MAS NÃO É SOBRE APARIÇÕES
Talvez essa seja uma das melhores maneiras de compreender O Desaparecimento do Universo.
As aparições chamam atenção.
As histórias de vidas passadas despertam curiosidade.
As afirmações sobre Jesus provocam debate.
As explicações metafísicas desafiam nossas crenças.
Mas tudo isso aponta continuamente para uma questão muito mais próxima de nós:
O que você está fazendo com a sua mente agora?
Quem você está julgando?
Quem você acredita que precisa mudar para que você possa ficar em paz?
Que culpa ainda está carregando?
Que situação continua utilizando para justificar sua raiva?
Onde está procurando sua salvação?
É por isso que a história de Gary não precisa permanecer apenas como a história de Gary.
Ela pode se transformar em um espelho.
UMA PERGUNTA PARA LEVAR COM VOCÊ
Antes de avançarmos, observe alguma situação de conflito presente em sua vida.
Não tente resolvê-la imediatamente.
Pergunte apenas: “Existe outra maneira de olhar para isso?”
Não significa concordar com comportamentos inadequados.
Não significa abandonar limites.
Não significa permitir abusos.
Significa apenas criar uma pequena abertura na certeza de que a nossa interpretação atual é a única interpretação possível. Essa abertura parece pequena. Mas é justamente por ela que uma nova percepção pode começar.
E talvez seja isso que aconteceu com Gary antes mesmo de Arten e Pursah aparecerem em seu sofá.
Ele começou com uma percepção extremamente simples: deve existir outra maneira.
E, segundo a história que ele conta, essa disposição para encontrar outra maneira abriu a porta para uma jornada que levaria nove anos para ser registrada e se tornaria O Desaparecimento do Universo.
No próximo post
Quem são Arten e Pursah na narrativa de Gary Renard?
Vamos aprofundar quem são essas duas figuras, como Gary descreve sua primeira aparição, o papel que desempenham no livro, o que afirmam sobre suas identidades e, principalmente, por que compreender a função simbólica de Arten e Pursah pode ser mais importante do que simplesmente decidir se acreditamos ou não em sua existência.





























































